domingo, 30 de junho de 2013
A Língua Kadiwéu (Guaicuru)
A língua Kadiwéu pertence à família de línguas conhecida pela designação “Guaicuru”. A língua
mais próxima em termos de caraterísticas mais comuns é a língua Toba no norte da Argentina.
Kadiwéu é uma língua aglutinante, quer dizer, existem muitos afixos que podem ajuntar com a raiz
(que tem o significado central) de uma palavra, formando palavras compridas. O resultado é que o
significado de uma palavra pode incluir muita informação.
Alfabeto
O alfabeto de Kadiwéu consiste de 4 vogais e 15 consoantes:
a, e, i, o — b, c, d, g, º, j, k, l, m, n, p, t, w, x, y.
As quatro vogais podem ser duplas e então escritas como aa ee ii oo.
Pronúncia
O som de cada letra não varia em qualidade, contrastando por exemplo com a letra “g”, em Português, que é diferente nas sílabas “gi” e “ga”.
A letra “c” é sempre como o primeiro “c” em “cachorro”
“d” é sempre como “d” em “daí” (nunca como em “dia”)
“g” é sempre como “g” em “gato”
“j” é como o som de “dj” em “Djalma”
“t” é sempre como “t” em “tambor”
“x” é como o som “tch” em “tchau”
“º” e “k” são sons uvulares descritos como plosivos.
A letra “k” é surda enquanto a letra “º” é sonora.
Os padrões das sílabas são CV e V e ocorrem em qualquer combinação. (Há poucas exceções
como “nyV”. (C = consoante, V = vogal.)
Substantivos.
Cada item inclui o plural e outros plurais alternativos. As categorias gramaticais são
marcadas com abreviações. Significados diferentes são enumerados e acompanhados por
explicações mais detalhadas. Alguns substantivos podem ser possuídos. Se a possessão é
obrigatória, o item pode ser marcado com hífen inícial. (Veja Apêndice C p.271) Se a palavra
for emprestada e adaptada do português, o fato é demonstrado com a abreviação port. Existem
plurais que indicam a classe geral do item, p.ex. cavalos pode significar um certo grupo de
cavalos ou cavalos em geral (contrastando p.ex. com cachorros). O plural geral é seguido pela
abreviação (ger).
Verbos.
Os verbos são marcados em geral com hífen inicial que indica que a forma está faltando o
prefixo da pessoa. (Veja Apêndice A p.265) Os verbos são divididos em duas classes principais:
transitivos e intransitivos, a classe sendo marcada no dicionário com as abreviações vt e vi.
Outras Considerações.
(i) Existem diferenças entre a fala do homem e a da mulher. Quando há forma diferente, a
fala da mulher está marcada com o item em itálicos como no exemplo seguinte:
low-eenatagi (fala da mulher).
(ii) Há variações de algumas palavras principais, estas variações estão marcadas em seguida
com (variação).
(iii) Palavras sinônimas estão seguidas pela abreviação (sinôn).
(iv) Durante o período desde 1968 quando o trabalho da transcrição começou, várias
palavras cairam de uso, e outras se modificaram. Só os antigos as usam hoje em dia.
Algumas das mais comuns entre estas palavras estão incluidas e marcadas com (palavra
antiga) ou (forma antiga).
(v) Algumas palavras tem categorias gramaticais em kadiwéu que não são fáceis de
entender, pois várias categorias de português precisam ser empregadas para classificar essa
palavras para ser melhor entendidas pelos professores e alunos, como p.ex, dem pro neg
masc que significa “demonstrativo pronominal de forma negativa e gênero masculino” É
claro que não existe uma forma equivalente no português.
(vi) Quando duas ou mais palavras se juntam para fazer outra palavra, em casos mais
comuns, cada palavra é separada por um hífen, p.ex. aº-ele que significa literalmente
“negativo-bom”, que quer dizer “não é bom”.
Fonte: http://www-01.sil.org/americas/brasil/publcns/dictgram/KDDict.pdf
quinta-feira, 27 de junho de 2013
"Guaicuru, Homem de Verdade"
Show Festival VIVA MS 'Canções da minha terra'
Composição: Lamartine S. Ribeiro e Orlando Araújo Ribeiro
Interprete: Orlando Brito
Composição: Lamartine S. Ribeiro e Orlando Araújo Ribeiro
Interprete: Orlando Brito
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Os irredutíveis Guaicurus
Por três séculos, os índios e seus cavalos aterrorizaram portugueses e espanhóis nas redondezas do Pantanal, sem nunca se render aos colonizadores
Com a cara escondida pela barba longa, o velho bandeirante roncava, com ar de quem tinha realizado uma façanha e tanto – o que não deixava de ser verdade. Afinal, quase cinco meses antes, ele e sua comitiva haviam saído da vila de Araritaguaba (atual Porto Feliz, em São Paulo) e atravessado 3,5 mil quilômetros entre rios e florestas. Ia o ano de 1720 e do norte vinham notícias da descoberta de ouro nas cercanias de Cuiabá. Depois de passar a vida caçando índios no sertão, parecia uma boa idéia ir até lá e encher os bolsos. Não foi. Mal dá para descrever o susto e o desgosto do velho quando um tropel de cascos, misturado aos gritos de guerra, quase o fez cair da rede.
Não precisou pensar duas vezes (nem daria tempo para isso): eram os guaicurus, temíveis índios guerreiros que teimavam em complicar a vida de quem se atrevesse a vaguear pela região. O bandeirante nem teve tempo de procurar seu arcabuz: uma lança atravessou seu pescoço, e a última coisa que viu foi sua filha, moça prometida a um novo-rico de Cuiabá, sendo arrastada pelos índios.
Os guaicurus venceram novamente. Do século 16 ao começo do século 19, nenhum espanhol, português, brasileiro ou paraguaio estava seguro nas terras desse povo, entre o Pantanal brasileiro e o Chaco paraguaio. Nesse tempo, jamais foram submetidos e, quando aceitaram a paz com os forasteiros, fizeram-no em seus próprios termos.
Os mitos que um povo conta sobre a própria origem costumam dar uma boa indicação de como ele se vê (e quer ser visto). E os guaicurus tinham sua própria história para justificar seu espírito guerreiro, relatada até hoje por seus descendentes, os kadiwéus de Mato Grosso do Sul. “Eles contam que o Criador – chamado de Gô-noêno-hôdi – tirou todos os povos de um buraco e deu a cada um funções diferentes. Alguns ganharam enxadas e se tornaram agricultores, outros viraram artesãos e assim por diante. Só que ele esqueceu os kadiwéus, que saíram por último do buraco. Por isso, permitiu que eles roubassem um pouco de cada povo”, diz o antropólogo Jaime Garcia Siqueira, do CTI (Centro de Trabalho Indigenista), em Brasília.
E assim foi. Os ancestrais dos kadiwéus eram nômades que viviam da caça, da coleta e da pilhagem. Segundo Jaime, cuja tese de mestrado na USP foi um estudo sobre a tribo, as pesquisas sobre a origem dos antigos guaicurus dizem que eles podem ter migrado da Patagônia, na Argentina. Outra hipótese especula que sua origem é andina. Seja como for, o certo é que a região que habitavam na época do descobrimento, no miolo da América do Sul, recebia influências da Amazônia, dos Pampas e das grandes civilizações dos Andes, como os incas. Embora muitos de seus vizinhos tenham virado lavradores sedentários, eles preferiram continuar a vida errante, divididos em tribos com língua e costumes bastante parecidos, mas sem unidade política.
Não que isso tenha lhes criado algum problema: quando os europeus chegaram não havia dúvida que quem mandava na área eram os guaicurus. Os primeiros relatos sobre eles dão conta de que foram os guaicurus que mataram o português Aleixo Garcia, em 1526. O aventureiro partiu do litoral de Santa Catarina com um exército de guaranis e saqueou postos avançados do Império Inca, mas, na volta, não foi páreo para os guaicurus. O mercenário alemão Ulrich Schmidel, membro da expedição espanhola que fundou Assunção, no Paraguai, cruzou com os guaicurus por volta de 1540 e relatou que eles tratavam as demais tribos da região mais ou menos como os nobres europeus tratavam os camponeses. Ou seja, pilhavam seus bens e as obrigavam a cultivar a terra para eles. De algumas delas, cobravam tributo, em troca de proteção.
Em 1542, os guaicurus combateram e escaparam de uma expedição organizada pelo lendário conquistador espanhol Alvar Núñez Cabeza de Vaca. Foi quando tiveram seu primeiro contato com os cavalos europeus. Segundo relatos do próprio Cabeza de Vaca, os índios pareceram aterrorizados frente aos bichos, mas mesmo assim não se intimidaram: ateando fogo às próprias tendas, confundiram os invasores (alguns espanhóis foram decapitados a golpes de machados feitos com mandíbulas de piranha) e conseguiram fugir sob a cortina de fumaça.
A partir daí, as tentativas de estabelecer bases ou missões religiosas em território guaicuru viraram uma lista de fracassos. Não se sabe em que momento os guaicurus passaram a usar cavalos como montaria e mesmo a origem dos animais é polêmica. O espanhol Félix de Azara, comandante das fronteiras do Paraguai no fim do século 18, afirma que eles roubaram seus primeiros eqüinos em 1672, mas é quase certo que tenham adquirido os bichos bem antes, de expedições e assentamentos europeus que foram para o brejo. Sob todos os aspectos, o fato mudou a vida dos guaicurus. Na metade do século 18, calcula-se que eles tivessem 8 mil cavalos.
Segundo relato do jesuíta José Sánchez Labrador, que tentou evangelizá-los nessa época, “eles conhecem as enfermidades dos cavalos melhor que as suas próprias. Em seus animais, não usam selas nem estribos. Montam em pêlo, e com um salto estão sobre eles”.
Ao virarem cavaleiros, os guaicurus adotaram como arma principal a lança, muitas vezes com ponta de ferro, e reforçaram ainda mais seu domínio sobre as tribos da região. Povos como os guanás, ancestrais dos atuais índios terenas, tornaram-se seus vassalos. Internamente, eles desenvolveram uma complexa estrutura social. Havia uma camada de “nobres” (também chamados de “capitães” pelos brancos): os caciques de cada aldeia e seus parentes mais próximos, cujo domínio era passado de geração a geração. Depois vinham os “soldados”, guerreiros que ocasionalmente podiam virar “capitães”, sem que essa posição, no entanto, passasse de pai para filho.
Havia, ainda, os “cativos” – pessoas capturadas durante ataques guaicurus a outros povos indígenas e aos colonos europeus e seus escravos. Os cativos eram mulheres e, principalmente, crianças. Isso porque os guaicurus praticavam com freqüência o infanticídio e o aborto e poucos casais chegavam a criar mais de um filho, e vários morriam sem deixar herdeiros. Essa prática é comum entre povos caçadores-coletores, que estão sempre em movimento e para os quais bebês podem representar dificuldades durante longas marchas. As crianças capturadas, já mais crescidas, eram criadas como guaicurus e repunham a população das aldeias. Apesar de os cativos realizarem alguns dos trabalhos mais pesados e considerados indignos, como plantar, muitos foram incorporados à sociedade guaicuru.
Ao longo dos séculos 17 e 18, a situação não melhorou para os europeus que tentavam atravessar a bacia do Paraguai. Os cavaleiros guaicurus se aliaram aos paiaguás, que, com suas canoas velozes e remos que viravam lanças, faziam dos rios seu domínio absoluto. A dobradinha passou a prevalecer tanto nas planícies quanto nos rios que as cortavam. A aliança quase exterminou a bandeira de Raposo Tavares, que tentou subir o Paraguai em 1648, e mantinha Assunção sob terror constante.
Quando aventureiros paulistas acharam ouro em Cuiabá, em 1719, houve uma corrida em direção às minas – bem, corrida é modo de dizer, já que a viagem, por demorar tanto quanto a ida às Índias, foi apelidada de “monção”, nome da estação chuvosa no Sudeste Asiático. Embarcados em canoas e mal equipados, muitos dos futuros mineiros viraram presa fácil da coalizão indígena. A filha capturada do bandeirante – lá no começo desta matéria, por exemplo – deve ter sido levada a Assunção, como outros brancos que eram capturados, e trocada por um polpudo resgate.
No fim do século 18, no entanto, o interesse europeu na região não era mais representado por um bando de barbudos aventureiros em busca de ouro. Os governos de Espanha e Portugal, brigando para definir as fronteiras de suas colônias, estavam decididos a fortalecer sua presença na região. Os portugueses, em especial, depois da fundação do Forte Coimbra, em 1775, perceberam que a paz com os guaicurus era um tremendo negócio. E mais: os guaicurus eram os melhores aliados que se poderia querer por aquelas bandas. Eles ofereceram aos índios mantimentos e utensílios, além de cavalos e roupas. Mas não foi sem tropeços que ocorreu a aproximação. Em 1778, os guaicurus se aproximaram do forte para comerciar e, como parte do negócio, ofereceram algumas de suas mulheres aos soldados. Enquanto os portugueses estavam entretidos com as índias, foram atacados de surpresa e 54 deles morreram. Mas o governo português estava decidido a ter o grupo do seu lado, e acabou conseguindo firmar a paz em 1791.
Os índios mantiveram sua liberdade e suas áreas de influência. Os portugueses (e depois os brasileiros) ganharam um aliado e tanto nos conflitos de fronteira contra a Espanha e na Guerra do Paraguai (veja quadro na página ao lado). E os guerreiros guaicurus conseguiram chegar invictos ao fim dessa história.
Fonte:http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/irredutiveis-guaicurus-433900.shtml
Defensores da fronteira - Guaicurus serviram no Exército brasileiro, durante a Guerra do Paraguai!
Era mesmo pedir demais que os guaicurus pendurassem as chuteiras depois do acordo de paz com os portugueses. Na verdade, com o respaldo de uma das potências que antes dificultavam sua vida, eles continuaram os ataques a índios e brancos do lado paraguaio, além de funcionar como uma espécie de patrulha de fronteira informal. Os relatos da época contam que os soldados do Forte Coimbra só conseguiram resistir a um ataque espanhol feito em 1801 graças à ajuda de um guaicuru chamado Nixinica. Conta-se que o índio estava na cidade paraguaia de Concepción, 500 quilômetros rio abaixo do forte, quando ficou sabendo dos planos contra Coimbra. Nixinica, então, teria remado sua canoa até a fortificação portuguesa e avisado seu comandante, Ricardo Franco de Almeida Serra. A informação foi crucial para preparar a defesa do forte, que escapou de ser tomado. O mesmo, contudo, não ocorreu no início da Guerra do Paraguai, em 1864. O Forte Coimbra caiu em 48 horas. Corumbá, na então província de Mato Grosso, também foi tomada rapidamente. Mas os kadiwéus conseguiram se desvencilhar do invasor e fizeram ataques constantes ao lado paraguaio da fronteira. Em 1865, por exemplo, teriam cruzado o rio Apa, entre os dois países, e saqueado a aldeia de San Salvador. Outros membros da etnia foram incorporados ao Exército brasileiro como soldados a cavalo, e sua bravura foi elogiada por cronistas da guerra, como o Visconde de Taunay. Até hoje, os descendentes dos que lutaram no conflito o recordam de forma quase mítica. “Mas o fato é que, apesar dessas narrativas heróicas, eles foram usados como bucha de canhão, assim como aconteceu com outras tribos brasileiras”, afirma Jaime Siqueira, do CTI. Os próprios relatos de Taunay sugerem isso, já que o autor afirma que os kadiwéus recebiam as missões mais perigosas. Os índios atribuem a posse de suas terras atuais no Mato Grosso do Sul ao fato de terem lutado ao lado dos brasileiros, numa espécie de pagamento por serviços prestados. Contudo, não há documentos da época do Império que provem a existência de um compromisso semelhante entre o governo de dom Pedro II e os kadiwéus.
Saiba mais
Livros
Os Caduveos, Guido Boggiani, Itatiaia, 1975 - O autor, um artista italiano que se estabeleceu no atual Mato Grosso do Sul e conviveu com as tribos da área no fim do século 19, retratou os desenhos, a cerâmica e até a música dos kadiwéus (ou caduveos)
Red Gold - The Conquest of the Brazilian Indians, John Hemming, MacMillan, 1995 - Excelente apanhado dos combates entre os guaicurus e paiaguás e os brancos que invadiam seu território em busca de ouro, baseando-se nos cronistas coloniais que escreveram sobre o assunto.
Fonte:http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/irredutiveis-guaicurus-433900.shtml
Mato Grosso do Sul/História
Antes da chegada dos europeus à região, no século XVI, o território sul-mato-grossense era habitado por diversas nações indígenas que guerreavam constantemente entre si por causa de território. As principais nações indígenas eram a dos guatós, a dos paiaguás, a dos guaicurus, a dos terenas, a dos guaranis, a dos xamacocos, a dos guanás, a dos bororos, a dos ofaiés, a dos quiniquinaus etc. Os guatós e os paiaguás eram conhecidos pela sua habilidade em conduzir canoas, habilidade esta que os tornava senhores dos cursos d'água na região. Os terenas e os guanás, ambos falantes de línguas do grupo aruaque, eram famosos pelas suas habilidades agrícolas: cultivavam mandioca, milho, amendoim, feijão etc.
Os guaranis dominavam as matas da atual fronteira com o Paraguai, de onde extraíam erva-mate para produzir sua bebida típica, o ka'a y ("água de mato", em português). Os guaicurus se consideravam um povo superior e procuravam submeter os demais povos indígenas à escravidão. Neste contexto, os primeiros exploradores europeus chegaram ao território sul-mato-grossense no século XVI. Expedições espanholas penetraram o continente através do rio da Prata e subiram seu leito em direção ao império inca ou cortaram o caminho partindo do litoral brasileiro e penetrando a pé pelo interior. Em ambos os percursos, exploraram o território sul-mato-grossense.
Exemplos são a expedição de Aleixo Garcia em 1524/1525, a de Juan Ayolas em 1537 e a de Álvar Núñez Cabeza de Vaca em 1543. Em 1580, Juan de Garay fundou Santiago de Xerez, o primeiro núcleo urbano espanhol em terras sul-mato-grossenses. Logo após, entretanto, a cidade seria arrasada pelos índios guaicurus. Em 1631, os padres jesuítas espanhóis ergueram treze povoados formados por índios catequizados no território sul-mato-grossense. Eram as reduções do Itatim. Porém, em 1633, as reduções foram atacadas por bandeirantes paulistas em busca de mão de obra escrava. Após o ataque, nada mais restou das reduções.
As incursões dos bandeirantes serviram de argumento para Portugal reivindicar vastas porções do território sul-americano a oeste da linha do tratado de Tordesilhas, que dividia os territórios recém-descobertos entre Portugal e Espanha. Segundo esse tratado, o atual território sul-mato-grossense pertencia à Espanha. Porém, o Tratado de Madri, assinado em 1750, definiu que os territórios deveriam pertencer a quem realmente os ocupasse. Baseado nesse princípio, Portugal conquistou a posse do território sul-mato-grossense. Visando a defender a região contra ataques de índios e espanhóis, os portugueses erigiram, em 1775, o forte Coimbra, às margens do rio Paraguai, próximo à atual cidade de Corumbá.
Por essa época, os índios guaicurus já haviam aprendido a montar os cavalos introduzidos na região pelos europeus e se tornaram exímios cavaleiros e temíveis adversários de portugueses e espanhóis. No século XIX, a pecuária se desenvolveu bastante no território, causando um significativo aumento populacional. Em sua maior parte, decorrente de migrações provenientes de outras regiões brasileiras. Em dezembro de 1864, o sul do Mato Grosso do Sul foi invadido por tropas paraguaias, dando início à Guerra do Paraguai. Visando a retomar o território, uma força do exército brasileiro foi enviada à região em abril de 1867. As tropas brasileiras penetraram em território paraguaio até a localidade de Laguna, mas tiveram então de retroceder por falta de mantimentos e munição.
Fez parte dessa expedição do exército brasileiro Alfredo d'Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay (1843-1899), que reuniu suas impressões sobre a expedição no clássico da literatura brasileira (publicado originalmente em francês, em 1871) La retraite de Laguna ("A retirada da Laguna"). Durante a guerra, os índios cadiuéus (descendentes dos guaicurus) lutaram do lado do exército brasileiro. Como recompensa, o imperador brasileiro dom Pedro II concedeu-lhes a posse oficial de seu território tradicional, a oeste do Rio Miranda. No início do século XX, o território sul-mato-grossense foi muito procurado por imigrantes estrangeiros, como italianos, sírios, libaneses e japoneses, os quais entravam no Brasil através do estado brasileiro de São Paulo e, chegando no território sul-mato-grossense, passavam a se dedicar à agricultura e ao comércio.
Em 1918, a inauguração da companhia Mate Laranjeira, em Ponta Porã, no sul do estado brasileiro de Mato Grosso, deu início ao ciclo do cultivo da erva-mate na região. O principal mercado consumidor era a Argentina. Com a posterior autossuficiência argentina em relação ao produto, no final da década de 1930, a companhia se extinguiu, juntamente com o ciclo da produção em larga escala da erva-mate na região. Em 1932, o estado brasileiro de São Paulo rebelou-se contra a elite política que havia conquistado o poder no Brasil na revolução de 1930. Era a revolução Constitucionalista, que contou com o apoio de revolucionários do sul do então estado brasileiro de Mato Grosso, que fundaram o estado de Maracaju.
O qual teve vida efêmera, pois a revolução Constitucionalista foi derrotada depois de alguns meses de combates contra o governo brasileiro. Entre 1943 e 1946, o extremo sudoeste do estado de Mato Grosso foi transformado, pelo presidente Getúlio Vargas, no território federal de Ponta Porã, visando a proteger a fronteira do país com o Paraguai. Na segunda metade do século XX, uma nova espécie agrícola começou a ser cultivada no sul mato-grossense: a soja. Em 1977, o sul do estado de Mato Grosso se separou do norte do estado, sob o argumento de facilitar a administração do vasto território e se constituiu no estado de Mato Grosso do Sul.
No início do século XXI, o sul do Mato Grosso do Sul passou a testemunhar um acirramento dos conflitos pela posse da terra entre índios guaranis e cadiuéus, que lutam pela criação de reservas indígenas e agricultores e criadores de gado, muitos dos quais haviam comprado as terras do governo federal em meados do século XX.
Fonte:http://pt.wikibooks.org/wiki/Mato_Grosso_do_Sul/Hist%C3%B3ria
Os Guaicuru - Os "Índios" Cavaleiros ainda vivem?
Quem eram os povos que habitaram o território correspondente a Mato Grosso do Sul no período da conquista? Como viveram e se relacionaram? Foram todos iguais ou sustentaram culturas e sociedades diferenciadas? O que os teria levado ao desaparecimento e à transfiguração compulsória que deu origem à figura do elemento humano a quem chamamos índio?
Entre as regiões noroeste e sudoeste do Estado de Mato Grosso do Sul, sudoeste do antigo Estado de Mato Grosso, estende-se o Pantanal sul-mato-grossense, formado por campos baixos e alagadiços que os rios inundam todo o ano.
Nesse cenário marcado pela exuberância dos carandás, paratudos e buritis, movimentando-se em busca da sobrevivência viviam tribos de línguas e costumes diferentes, muitas das quais, embora apresentassem variações etno-culturais, tinham em comum a orientação pelo ciclo das águas. Entre essas tribos estavam os canoeiros Payaguá e Guató, povos que tinham no rio Paraguai sua principal fonte de subsistência, dele se afastando apenas quando seu curso inundava os campos.
Outros grupos sedentários, como os Guaná, de língua Aruak, preferiam os terrenos abrigados e mais propícios ao cultivo, caracterizando-se como tribos de lavradores, produtores de mantimentos e tecidos.
Nem sedentários, nem completamente nômades, outras tribos, como a dos Guaicuru, também seguiam o fluxo das águas acompanhando a caça que deslocava-se no movimento das enchentes e vazantes. Viventes em terra, esses seminômades caçadores e coletores constituiam-se em bandos de ferozes guerreiros que causavam apreensão entre os demais grupos nativos da região, a quem faziam cativos.
Nesse ir e vir no compasso das águas, enquanto milhares de nativos viviam em diferentes configurações socioculturais, os espanhóis penetravam o interior do Continente utilizando a foz do Rio da Prata, firmando seu principal núcleo de ocupação em Assunpción, no Paraguai. Pelos afluentes do rio Paraguai chegaram à bacia do Amazonas, donde partiram para a conquista dos altiplanos da América Central.
Uma vez instalados, possuindo tecnologia superior, os conquistadores implantaram o colonialismo de exploração, apossando-se das novas terras, saqueando suas riquezas e remodelando seus habitantes como escravos coloniais, atuando através da “erradicação da antiga classe dominante local, da concessão de terras como propriedade latifundiária aos conquistadores, da adoção de formas escravistas de conscrição de mão-de-obra e da implantação de patriciados burocráticos, representantes do poder real, como exatores de impostos” (Ribeiro, 1978).
A partir de então, sob pressão escravista, os povos nativos sofreram grande ruptura em seu processo evolutivo natural, sendo remodelados através da destribalização e da deculturação compulsória, perdendo a maior parte de seu patrimônio cultural e só podendo criar novos hábitos quando estes não colidissem com sua função produtiva dentro do sistema colonial (Idem). Encerradas em territórios cada vez menores ou absorvidas pelo processo civilizatório, as etnias nativas foram conduzidas a transfiguração étnica-cultural ou a completa extinção.
Os canoeiros Guató, por exemplo, foram dominados ainda no período colonial. Mais tarde, por ocasião da Guerra do Paraguai, lutaram e sofreram ataques de ambos os lados, sendo dizimados nos anos seguintes por epidemias de varíola e outras doenças. Os poucos remanescentes continuaram a viver como pescadores nas lagoas e furos do alto Paraguai (Ribeiro, 1996).
Os Guaná também foram rapidamente dispersados. Segundo notícias da primeira metade do século XIX, uma parte foi aldeada junto ao Paraguai; outra parte, mais a leste, no rio Miranda, teve suas aldeias invadidas em conflitos entre brasileiros e paraguaios. Com o tempo, os remanescentes dispersos tentaram voltar aos locais de origem, passando a viver em competição com criadores de gado que ocupavam a região (Idem). Os Kinikinawa e os Layana, por exemplo, foram compelidos a trabalhar para aqueles que tomaram suas terras. Os Terena, que tiveram suas aldeias dominadas por comerciantes de aguardente, acabaram transformando-se em sertanejos ou sendo obrigados a afastarem-se das terras férteis do Miranda, refugiando-se em terrenos impróprios para a agricultura e para sua condição de lavradores.
De maneira generalizada, todas as tribos nativas que habitavam a região foram extintas ou transfiguradas pela pressão de um modelo colonizador despótico e intolerante, expresso, “tanto por sua projeção geográfica sobre a terra inteira quanto na sua capacidade de estancar o desenvolvimento paralelo de outros processos civilizatórios” (Ribeiro, 1978).
Neste cenário conflitante houve, porém, uma exceção. Um determinado grupo étnico se fortaleceu após o contato com os colonizadores. Para isso, saquearam os bens culturais de seus adversários, adotando o cavalo, a lança e outras armas para utilizá-las no uso da caça e da guerra, aprimorando sua própria estrutura sociocultural e se transformando numa das tribos nativas mais resistentes de toda América do Sul.
No século XVI, ainda no início da ocupação espanhola, os nativos de quem falamos assaltaram as pequenas vilas que se formaram, as estâncias crioulas e a cidade de Assunção, guerreando ferozmente, fazendo cativos e contra-atacando às tentativas de extermínio e redução empreendidas pelos invasores.
Suas correrias expandiram-se a territórios cada vez mais amplos, aumentando sua fama de guerreiros invencíveis. Desde “Cuiabá, em Mato Grosso, às proximidades de Assunção, no Paraguai, e das aldeias Chiriguano nas encostas andinas, no Chaco, até as tribos Guarani, das matas que margeiam o Paraná. Em toda essa região atacavam e saqueavam não somente grupos indígenas, mas também povoados espanhóis e portugueses, fazendo cativos em todos eles. Chegaram, deste modo, a constituir o principal obstáculo que os colonizadores tiveram de enfrentar no centro da América do Sul e motivo constante de suas preocupações. Bem aparelhadas expedições militares foram armadas por portugueses e espanhóis para combatê-los sem jamais lograr êxito completo contra esses índios cavaleiros, que conheciam profundamente seu território e sabiam fugir a todo encontro que lhes pudesse ser desfavorável” (Ribeiro, 1996).
Aliados aos canoeiros Payaguá, empreenderam ataques fulminantes por terra e água, como os realizados contra as monções paulistas que rumavam ao ouro de Matto Grosso, causando a elas mais prejuízo que todas as demais tribos guerreiras reunidas.
Repeliram ainda o assédio ideológico dos espanhóis, principais interessados em sua domesticidade, saqueando e destruindo reduções e aldeamentos missionários; negando-se à conversão salvacionista e dificultando a catequização de outras tribos. Impediram a utilização de caminhos mais curtos entre Assunção e o Peru, obrigando os viajantes a desviarem o curso de suas jornadas por caminhos tortuosos, causando atraso e prejuízo ao empreendimento colonizador.
Sentiam desprezo pelo raça européia e orgulhavam-se de serem superiores, retribuindo à civilização o mesmo tratamento etnocêntrico e intolerante dispensados aos povos nativos. Sobre esse assunto, Félix Azara, citado por Baldus, escreveu o seguinte: “se creen la nación más noble del mundo, la más generosa, la más formal en el cumplimiento de su palabra con toda lealtad y la más valiente. Como su talla, la belleza y elegancia de sus formas, así como sus fuerzas, son bastante superiores a las de los españoles, ellos consideran a la raza europea como muy inferior a la suya” (Boggiani, 1945).
A eles atribuem-se também importantes participações em episódios da História brasileira, como “o não estabelecimento dos paraguaios acima do rio Apa, numa época em que, primeiro aos portugueses, depois aos brasileiros, era materialmente impossível impedí-lo. No curso da guerra do Paraguai lutaram ativamente ao lado das tropas brasileiras, mas sempre independentes, como uma força à parte, movida por motivações próprias e exercendo a guerra a seu modo” (Ribeiro, 1996).
Em sua trajetória histórica, resistiram com grande poder de adaptação, chegando até à segunda metade do século XIX com força para impor temor aos inimigos. Atravessaram o século XX mantendo fortes traços culturais conseguindo chegar ao século XXI conservando certo grau de independência e a posse de uma reserva territorial cuja área encontra-se dentro do Município de Porto Murtinho (MS).
Hoje, estão representados pelos Kadiwéu, remanescentes da divisão de antigas tribos Mbayá-Guaicuru. Sobreviventes que, mais uma vez, tentam adaptar-se ao processo civilizatório que continua a pressioná-los com intolerância e etnocentrismo, resistindo ao assédio da sociedade envolvente que ainda pretende conquistar-lhes a alma e tomar-lhes as terras.
Símbolo de resistência contra a deculturação compulsória, os Kadiwéu têm uma História que o povo brasileiro deveria conhecer melhor, não apenas pela ferocidade com a qual foram julgados bárbaros e cruéis no passado - traço que a civilização experimentou muitas vezes - mas pela capacidade de lutar e se adaptar sem perder a própria identidade.
Referências:
BOGGIANI, Guido. Os Caduveo. Introdução de Herbert Baldus. Prefácio de G. A. COLINI. São Paulo: Livraria Martins, 1945.
RIBEIRO, Darcy. Os índios e a civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. 1. Reimpressão - São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
RIBEIRO, Darcy. O Processo Civilizatório: estudos de antropologia da civilização; etapas da evolução sócio-cultural. 4. Ed. - Petrópolis: Vozes, 1978.
Pesquisa e texto:
Marcos Paulo Carlito
Fonte: http://www.overmundo.com.br/overblog/os-guaicuru-os-indios-cavaleiros-ainda-vivemm
Quem eram os Guaicurus?
GUAICURUS - Foram os primeiros a terem contato com o homem branco, através dos espanhóis, em 1535.
Das nações, que dominaram a região, esta foi a de maior fama, e podem ter tido como tronco principal os m'bayas, que como cavaleiros, mantiveram língua, usos e costumes semelhantes.
Grande número de etnógrafos reuniu sob essa designação, todos os m'bayas, que podem ser tidos como tronco original, das tribos que como cavaleiros, mantiveram língua, usos e costumes semelhantes.
O rio Paraguai passou a ser transposto pelos Guaicurus, que antes viviam na região do Chaco paraguaio e boliviano. Possuidores de índole bravia assaltava tribos sedentárias, impondo-lhes sua soberania e obrigando-as a lhes fornecer alimentos e tecidos para seu abrigo, sob pena de serem escravizados.
Fisicamente, o Guaicuru era um povo forte, de estatura alta, viviam de caça, pesca e da lavoura de subsistência a que se dedicavam. Crentes de que constituíam um povo superior, procuravam dominar outras tribos e obrigando, estas, a fornecer-lhes alimentos e tecidos, sob pena de serem escravizados.
Os guaicurus adquiriam seus escravos pela força, pela violência, levando à guerra permanente as tribos do Chaco. Os chamacocos eram os escravos preferidos e os mais procurados e, apesar de muito bem tratados, eram considerados de raça inferior. Quando à custa de tratados, os guaicurus foram impedidos das correrias no rio Paraguai, a obtenção de escravos tornou-se difícil. Assim entabularam relações amistosas com os chamacocos, os quais apesar da apreensão, conseguiram escravos no interior, na tribo dos tumamá, fosse pela força ou pelo comércio. Em troca os guaicurus lhes forneciam cavalos, velhos fuzis e pasta de urucum.
O contato com os espanhóis em 1535, e o conhecimento do cavalo, modificou os hábitos desse povo. Enquanto para outras tribos o cavalo surgira como um nova caça, para o Guaicuru constituía um meio de transporte rápido e uma facilidade maior na luta contra seus inimigos, tanto que ficaram conhecidos como "índios cavaleiros".
Tornando cavaleiro, o Guaicuru passou a constituir séria ameaça aos conquistadores espanhóis e portugueses que, cada um procurava apossar-se da região.
Segundo o etnólogo Darcy Ribeiro, o Guaicuru transportado pelos cavalos, percorria todo o território do Pantanal, das proximidades de Cuiabá até Assunção, nas encostas andinas até as tribos do Guarani, na bacia do Paraná. nem mesmo os jesuítas conseguiram aldeá-los em suas missões reduções ou doutrinas.
Esses indígenas impediram, de todas as maneiras as penetrações dos Pantanais, de modo que se tornaram morosas, cita-se o episódio do Forte de Coimbra em 1778. Apareceu, em frente ao forte, um grupo numeroso da tribo Guaicurus, de ambos os sexos, de maneiras pacíficas, levando animais e objetos que se propunham a trocá-los por facões e machados. O comandante os acolheu não desconfiando de nada. No meio das permutas, colocaram em prática o que haviam tramado, convidando os soldados a deitarem com suas mulheres, o que foi imediatamente aceito pelos militares. Neste meio tempo, valendo da confusão puseram-se a matar por degola ou paulada 54 homens e retiraram-se sem a perda de um só membro da tribo.
Depois de outros incidentes de menor efeito, o Capitão-General de Mato Grosso João de Melo Pereira e Cáceres, assinou em Bela Vista, a 1 de agosto de 1791 o tratado de paz e amizade com os principais caciques Guaicurus.
Durante a Guerra do Paraguai os Guaicurús foram de grande valia da defesa do Forte de Coimbra.
Hoje além de estarem preservados pelas gravuras de Debret, encontra-se alguns remanescentes na Serra da Bodoquena.
Quando o ouro de Cuiabá foi descoberto e por estas terras começaram a ser mais desbravadas os Guaicurus se aliaram aos Paiaguás, senhor quase absoluto de toda a Bacia do Paraguai.
O século XX encontraria os Guaicurús reduzidos a meio milhar de índios, divididos em grupos espalhados pelas fazendas de criação que aos poucos invadiam seu antigo território.

Fonte: http://www.pantanalms.tur.br/tribos9.htm
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